Por Jorge Carvalho
Tenho recebido muitas indagações sobre qual a lucratividade e a rentabilidade adequadas para uma pequena empresa. Primeiro vamos conceituar essas duas palavras. Lucratividade é quanto representa percentualmente o lucro, em relação às receitas de um determinado
período (mês, trimestre, semestre, ano comercial ou outro período que o investidor queira analisar). Entendendo-se aqui por receitas a soma das vendas totais, menos vendas canceladas, mais os juros recebidos de aplicações financeiras no mesmo período e de outras receitas não operacionais, como aluguéis e venda de ativos do imobilizado. Essas são as mais comuns. Vamos para uma fórmula prática: Lucro/Receitas x 100 = % lucratividade. Exemplo: Receitas de R$ 20 mil. Lucro de R$ 2 mil. Dividindo-se o lucro pelas receitas e multiplicando-se por cem, teremos 10%.
Já a rentabilidade é quanto representa percentualmente o lucro, em relação aos investimentos realizados no negócio. Se utilizarmos o lucro do período de um ano, teremos rentabilidade anual. A dúvida dos empreendedores de pequenas empresas concentra-se em saber qual o percentual adequado ou bom para a lucratividade e a rentabilidade. Para ajudar a sanar essas
dúvidas, vali-me de alguns exemplos: uma grande rede de supermercados nacional, em determinado ano, teve uma lucratividade de 1,5%. O faturamento mensal era da ordem de R$ 300 milhões. O que dava um lucro líquido de R$ 4,5 milhões/mês ou R$ 54 milhões/ano. Ora, com esse resultado era possível investir em três grandes lojas, tipo magazine, de 5.000 itens. Já uma lojinha que fature R$ 20 mil/mês, mesmo que tenha uma lucratividade de 15% (dez vezes mais que o outro exemplo), terá um lucro de R$ 3 mil. Então, o ganho de escala contribui para uma melhor lucratividade. O correto é a empresa comparar a sua lucratividade com a dela mesma ao longo do tempo. Ou, comparar com a lucratividade média obtida pelo seu segmento de atuação. As associações ou os sindicatos de empresas costumam fazer pesquisas sobre o assunto e divulgam aos seus filiados. É importante, também, analisar em conjunto com a rentabilidade. Sabendo-se o volume de recursos financeiros investidos no negócio é possível calcular a rentabilidade: lucro/investimento x 100. Também se calcula a rentabilidade dividindo-se o lucro pelo patrimônio líquido e multiplicando-se por cem. A rentabilidade considerada boa é aquela que é suficiente para recuperar o investimento no menor prazo possível. Mas, não dá para esperar rápidas recuperações, pois a realidade do mercado nos
desestimula a crer nessa possibilidade. Há alguns segmentos em que a recuperação do investimento tem que ser rápida. Por exemplo, os bares e restaurantes da moda e as boates. Precisam recuperar o investimento antes de 2 anos, sob pena do negócio sair da moda e fechar as portas. Para isso têm que vender os produtos com altas margens de lucro. Tipo comprar um refrigerante por R$ 1,00 e vender por R$ 6,00. Uma garrafa de whisky que custa R$ 80,00 e tem 20 doses, vende-se uma dose por R$ 16,00. Enquanto o negócio for bem frequentado consegue-se ganhar dinheiro. É comum haver rotatividade elevada nesse segmento.
O padrão internacional de rentabilidade é a TIR – Taxa Interna de Retorno, que é de 12% ao ano. Nesse nível, consegue-se recuperar o investimento em 8 anos e quatro meses. Algumas empresas multinacionais vêm para o Brasil na expectativa de obter rentabilidade de 15% ao ano. Isso dá um prazo de retorno de 6 anos e oito meses. A realidade da rentabilidade no Brasil não é das melhores. Em um estudo sobre ela, com as 500 maiores empresas brasileiras, num período de 15 anos, apontou uma rentabilidade média de 9,9% ao ano. Significa uma recuperação do investimento pouco depois dos 10 anos. Em relação às micro e pequenas empresas, a realidade é que 40% delas não sobrevivem aos 5 anos de existência. Logo, essas não conseguem recuperar o investimento. Das que sobrevivem aos 5 anos, muitas existem
para garantir a sobrevivência do empreendedor. Então, uma rentabilidade de 20% ao ano é considerada excelente. Vejo muitos empresários com expectativa de recuperação de investimento entre 2 e três anos. Esses casos são as exceções. Lembro de um projeto de expansão de um investimento, em uma empresa do Sertão de um estado do Nordeste do Brasil. A rentabilidade era de 7,9% ao ano. Mesmo sendo uma rentabilidade baixa, defendi o projeto. Aleguei que uma empresa operando numa Região de seca, com baixo nível de qualificação de mão-de-obra e baixo nível de renda per capta, conseguir sobreviver aos dez anos de existência já é uma vitória. E ainda gerar empregos, pagar os impostos e ser lucrativa. Mesmo demorando mais de 12 anos para recuperar o investimento, merecia que se lhe fosse concedido o crédito para o investimento. O banco não aprovou o crédito inicialmente. Porém, alguns meses depois liberaram o financiamento do investimento.
Numa conjuntura de crise da economia, qualquer rentabilidade positiva já é um bom negócio. Muitas empresas têm adotado a estratégia da sobrevivência. Para, após turbulências, na calmaria, voltar a investir e crescer.
Jorge Carvalho é economista e consultor de empresas.